Ar-condicionado, direção hidráulica e trio elétrico. Freios ABS e duplo airbag. Prazos estendidos de garantia. Tudo isso e mais um pouco, por um preço acessível, mais barato que um concorrente sem os opcionais.

Esta foi a receita das fabricantes chinesas quando chegaram ao Brasil. Marcas como JAC Motors, Lifan, Chery e Effa vendiam bem no inicio e até preocuparam as mais tradicionais.

A JAC foi ainda mais longe, com forte investimento em rede de concessionárias em todo o País, centro de distribuição de peças em Barueri (SP) e um garoto-propaganda de peso.

Naquela época, minha avaliação era cautelosa. A baixa qualidade do acabamento dos carros chineses me deixava com uma pulga atrás da orelha. Afinal, se era ruim nas partes visíveis, como seria em partes mecânicas não visíveis?

Na primeira vez em que entrei num Effa M100, tive a sensação que aquilo não aguentaria cinco anos de uso. Curiosamente, no mês passado vi um taxista de Santos (SP) com um M100. Corajoso!

Nos testes de imprensa, teve revista especializada que desistiu de continuar a avaliação de um M100 por avaliá-lo como inseguro. Uma outra publicação relatou que o pedal de freio de um Chery S18 entortou numa freada mais brusca.

Mas, a mim, não eram somente acabamento e questões mecânicas que preocupavam. O design também não me atraía, já que alguns modelos mais pareciam cópias malfeitas de outros carros consagrados – como foi o Lifan 320 e o 620, cópias inegáveis de Mini e BMW Série 3, respectivamente.

Para ajudar a piorar as coisas, o IPI de carros importados subiu cerca de 30 pontos percentuais em 2011, em medida claramente protecionista para frear as vendas dos veículos chineses. A solução, então, seria antecipar o projeto de fabricá-los no Brasil.

E foi isso o que fizeram algumas marcas – como a JAC, que chegou a enterrar um J3 no terreno da futura fábrica para mostrar que ela, de fato, estaria instalada no Brasil anos depois.

Mesmo com tantos entraves, as coisas iam bem, e o consumidor comprou a ideia de um “completão” barato.

Arrisco dizer que isso contribuiu para a queda na produção dos carros básicos, hoje em dia bem raros no mercado de 0km.

Entretanto, a alta do dólar complicou de vez a vida dos chineses. O preço, principal diferencial das fabricantes, deixou de ser competitivo, e as vendas caíram bastante.

Como sou otimista, lembrei-me do que aconteceu com os coreanos nos anos 90.

Kia Motors e Hyundai também enfrentaram problemas no início, e hoje são objetos de desejo, com produtos bonitos e de qualidade indiscutível.

A virada dos coreanos aconteceu na metade dos anos 2000, quando alguns modelos adotaram belos desenhos, mais condizentes com nosso mercado.

Claro que só desenho não vende; a boa qualidade mecânica contribui para o sucesso dos coreanos. Aí está o HB20, em segundo lugar nas vendas gerais, que não me deixa mentir.

Pelo lado dos chineses, a virada de jogo parecia que viria mais rapidamente. Ao menos esta foi minha percepção quando conheci o renovado J3 e o sedã J5 da JAC, por volta de 2013. Inclusive, no meu canal no YouTube você até pode encontrar vídeos de ambos (JAC J3 e JAC J5).

O acabamento havia melhorado muito, a ponto de eu considerá-lo ser melhor que o da concorrência. E, no caso do J5, o design o colocava como um sedã desejável.

A JAC ainda apresentou o interessante J2, o monovolume J6 e o furgão J8, fora os comerciais leves. Recentemente, lançou dois SUVs – o T5 e o T6 -, o que mostra que, mesmo de maneira tímida, a fabricante ainda investe no mercado brasileiro.

JAC J2 / Crédito: Murilo Góes

O problema é que a tal virada de jogo das chinesas ainda não aconteceu. As marcas enfrentam dificuldades com assistência técnica e sofrem com a falta de peças e reclamações de clientes quanto à qualidade dos carros. Não bastasse tudo isso, os modelos têm alta desvalorização na revenda.

Todos esses pontos negativos se espalharam rapidamente, e isso fez o consumidor desacreditar nos carros chineses.

Hoje, o cenário é nebuloso para essas fabricantes. Se as grandes sofrem com a crise, imagine as chinesas! Algumas já desistiram, outras ficaram só no projeto, e as que continuam por aqui têm futuro incerto.

A própria JAC – para mim, a que foi mais longe entre elas – corre o risco de ter que pagar uma multa, já que se beneficiou do IPI reduzido e está longe de cumprir o prazo de inauguração da fábrica. Imagine o rombo que seria pagar 30% do valor de cada carro que vendeu nesse período!

Isto posto, quando me perguntam se vale a pena comprar um chinês usado, digo com todas as letras que não. E logo eu, que defendo que devemos comprar o carro pensando no uso, e não apenas na revenda.

Mas o caso dos chineses é mesmo bem complicado! Como colocar meu dinheiro, ganho com tanto suor, numa compra incerta? Até quando eu teria suporte do fabricante? O termo “casamento” é o que melhor se aplica na compra de um chinês.

Veja o caso da tradicional fabricante japonesa Mazda. Abandonou as operações no Brasil e deixou órfãos os donos de MX3, Protegé e 626. Para manter um desses carros, hoje, só mesmo se o proprietário conhecer algum mecânico especializado. Revendê-los, então, é uma missão quase impossível.

Seria esse o futuro dos chineses? Infelizmente eu arrisco dizer que sim.

Até a próxima!

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.