Nesses meus 33 anos de vida, posso listar três pilares que contribuíram muito para formar minha paixão pelo mundo automotivo: meu pai, Ayrton Senna e a Fiat.

Você pode perguntar: “mas justo a Fiat?”. Faz sentido, já que as outras três grandes – Volkswagen, General Motors e Ford – têm um histórico bem mais rico em nosso mercado, com carros que ainda hoje despertam paixão nos entusiastas.

Quem não se encanta com um belo SP2, Chevette ou Landau?

Meu pai foi um “sortudo” que teve a oportunidade de ter esses três clássicos em meados dos anos 80. Entretanto, foi em 1988, quando eu estava com apenas cinco anos, que ele apareceu em casa com um lindo Fiat Prêmio CSL. Começava ali minha história com a Fabbrica Italiana Automobili Torino.

Cresci em Fiats, fui para a escola em Fiats, namorei em Fiats, casei num Fiat e fui pai num Fiat. Por isso, caros amigos de Betim, vocês são tão importantes na minha vida. E é por isso, também, que dedico esta coluna a vocês.

Resolvi falar sobre a Fiat nesta semana em virtude dos 40 anos de atuação no Brasil que a marca irá celebrar no próximo dia 9.

A data marca o início da produção do 147, aquele simpático carrinho que já chegou ditando o que seria regra, com seu pequeno motor dianteiro em posição transversal, o primeiro nacional com essa configuração. Inovação e pioneirismo sempre andaram juntos com a Fiat nesses 40 anos. O próprio 147 foi o primeiro carro a álcool no mundo.

De cabeça, ainda lembro que o Prêmio foi o primeiro nacional a ter computador de bordo como opcional; que o Uno Mille popularizou os motores de 1000 cm³; que o Tempra foi o primeiro nacional com motor multiválvulas; que o Uno foi o primeiro nacional com motor turbo; que o Tipo foi o primeiro nacional com airbag como opcional; que a Palio Weekend Stile foi a primeira com airbag de série; que o Marea Turbo foi o nacional mais potente por muitos anos; que a linha Adventure “criou” o segmento dos “pseudo-fora-de-estrada”; que a Strada foi a primeira com cabine estendida, depois dupla e depois com três portas… Enfim, certamente há mais coisas para serem lembradas, mas o que fica claro é que os “ítalos-mineiros” nunca tiveram medo de arriscar.

Voltando à garagem da minha casa, aquele primeiro Prêmio azul do meu pai deu lugar a um prata 1989 um ano depois, com mimos como vidros e travas elétricas. O Prêmio seguinte só viria em 92, já com a frente “baixa”, mas na versão SL, mais simples.

Um ano mais tarde, o SL foi para minha mãe, que se desfez de um Fiat Oggi 84 – o sedan do 147 -, e meu pai comprou um novo CSL para ele, dessa vez verde. Esse seria o mais completo até então, pois vinha com ar quente e check control. A tristeza foi que a alegria durou pouco, pois bateram no carro.

Com o dinheiro do seguro, meu pai comprou outro CSL, agora com ar-condicionado. Pela primeira vez, ele decidiu envenenar o motor e levou o carro num conhecido preparador paulista. Apelidamos o Prêmio de “Fukuda” – nome do referido preparador.

No fim dos anos 80 e início dos 90, meu avô paterno trocava de carro na mesma velocidade – ou seria melhor intensidade? – que meu pai, mas a preferência era pelos esportivos. Foram vários Unos 1.5 e 1.6R perfumados com English Lavender, marca registrada do meu avô.

Chegou o ano de 1993, e eu recebi uma das melhores notícias da minha vida: o Prêmio daria lugar a um Tempra 16v. Quem viveu essa época sabe o impacto que esse sedã médio teve em nosso mercado. Que carro lindo! Fui com meu pai buscá-lo numa concessionária no bairro da Mooca, na Zona Leste de São Paulo. Lembro-me daquele dia como se fosse hoje.

Um ano depois, meu pai “traiu” a Fiat e apareceu com um Omega em casa. Esse GM já pode ser considerado um clássico, mas eu o odiava nesse período e não perdoava a “traição” do meu pai. Hoje, maduro, reconheço que o Omega foi um baita carro.

Felizmente, minha mãe ainda era fiel à marca italiana, e o Prêmio SL 92 deu lugar a um Fiat Tipo em 1995.

Meu pai só voltaria a ter um Fiat em 97, quando comprou uma das primeiras Palio Weekends, na caprichada versão Stile. Seria o último Fiat do meu pai – mas não da minha mãe, que (ainda) se mantinha fiel. Depois do Tipo, ela teve um Siena.

Em 2001, já com 18 anos e habilitação na mão, fui atrás do meu primeiro carro. E qual modelo você acha que eu comprei? Só poderia ser um Prêmio! Coube a ele, um vermelhinho CS 94, ser meu companheiro por bons sete anos. Tenho tantas histórias com ele que só daria para contá-las numa outra coluna.

Em época de comunidades no extinto Orkut, eu defendia até com um pouco de cegueira a “superioridade” da Fiat frente à concorrência. Dizia a todos que nunca venderia aquele carro. Mas, no fim das contas, mudei de ideia – já que é normal querermos algo melhor. Isso foi em 2008, quando minha filha nasceu. Encerrava ali minha história familiar com a Fiat, já que nesse mesmo ano minha mãe trocou o Siena por um Fiesta.

Vivemos 20 anos de bons Fiats na garagem de casa, entre 1988 e 2008, exatamente a metade do tempo de atuação da fabricante aqui no Brasil. E você quer saber o porquê não temos mais nenhum Fiat na família? Muito simples: câmbio automático.

Infelizmente, a Fiat insiste no câmbio Dualogic. Apesar de o anunciarem como automático, na verdade ele é do tipo automatizado de uma embreagem e está longe de ter a suavidade de um legítimo automático ou de um bom automatizado de dupla embreagem.

E não sou só eu quem pensa assim. Como Caçador de Carros, percebo que muitas pessoas que dispensam o pedal de embreagem não querem nem ouvir falar dos automatizados, independentemente de fabricante.

Alô, Fiat! Você, que é tão boa em ouvir o consumidor, preste atenção nisso: faça um sedã de respeito com um câmbio à altura – e eu, pessoalmente, voltarei a desejá-la!

Outra falha da fabricante que merece registro é o desprezo pelos carros do passado. Fico triste em ver Tempras, Tipos e Mareas jogados pelos cantos, muito pela dificuldade dos donos em mantê-los. Por que é tão difícil respeitar o consumidor e manter em linha as peças dos carros antigos?

Mas, problemas à parte, o cenário atual demonstra um case de sucesso, inegavelmente. A união da Fiat com a americana Chrysler tem se mostrado benéfica para ambas as partes, algo raro em parcerias de fabricantes de carros. Creio que o fato de os veículos serem para públicos diferentes contribui para isso.

Com todo respeito e admiração que tenho por você, prezada Fiat, desejo muitos e muitos anos de mais sucesso neste Brasilzão. Feliz aniversário!

Felipe Carvalho é o primeiro caçador profissional de carros do Brasil. Acesse o site www.cacadordecarros.com.br e saiba mais. Inscreva-se no canal do Caçador de Carros no YouTube e curta a página de Felipe no Facebook.