Em meados de 2009, a Toyota decidiu deixar a sobriedade dos seus modelos atuais um pouco de lado para resgatar a tradição de fabricar carros de maior apelo emocional e bons de dirigir. Para isso, a marca contou com a experiência da compatriota Subaru no desenvolvimento de um esportivo que fosse acessível e, principalmente, prazeroso ao volante. Essa parceria deu origem ao GT86 (BRZ ou FR-S quando leva os emblemas da Subaru e da Scion, respectivamente), um cupê 2+2 com motor boxer (cilindros opostos) dianteiro e tração traseira. O nome do modelo faz menção a uma versão hatchback do Corolla da década de 1980, também tracionada pelas rodas de trás, e que faz sucesso até hoje no Japão em eventos de drift.

Para reduzir os custos de produção, a Toyota abriu mão de soluções cada vez mais presentes nos esportivos atuais, como recursos eletrônicos extremamente avançados, turbo e materiais de acabamento mais sofisticados. O GT86 esconde sob a sua bela carroceria a arquitetura do Subaru Impreza, além do conjunto mecânico da marca do emblema estrelado. Os engenheiros também tiveram o cuidado de projetar o motor em uma posição mais baixa e recuada, além de utilizar uma fina chapa de aço de alta resistência no teto, para favorecer a dinâmica. O resultado disso é um carro com boa distribuição de peso (53% na frente e 47% atrás) e centro de gravidade bastante reduzido, a 460 milímetros do chão – o de uma Ferrari 360 Modena, por exemplo, fica a 447 mm.

Embora os motores de cilindros opostos sejam uma característica da Subaru, o “coração” do GT 86 também tem o toque da Toyota. Para atingir melhores índices de consumo e emissões, o propulsor D-4S de 2.0 litros de 200 cv de potência, naturalmente aspirado, recebeu o cabeçote utilizado no Lexus GS, que combina a injeção de combustível convencional (para melhor rendimento em baixas e médias rotações) com a injeção direta (garante melhor aproveitamento a giros mais elevados).

Divertido em qualquer situação

Quem está prestes a dirigir o GT86 já esboça um sorriso antes mesmo de entrar no carro. É normal ficar admirando as linhas do cupê por alguns instantes antes de abrir a porta e se acomodar no banco em formato de concha e revestido em couro preto e camurça vermelha. A posição de dirigir é soberba, com o assento bem baixo e todos os comandos à mão do motorista. Logo de cara, chamam a atenção o painel destacado pelo grande conta-giros centralizado e o volante de empunhadura praticamente perfeita e sem firulas como comandos de som (há apenas a pequena alavanca do piloto-automático presente nas gerações anteriores do Corolla). No GT86 tudo é voltado para a interação do condutor com o carro.

Após o botão de partida ser acionado no console central, o motor emite um ronco metálico, encorpado, típico dos boxers da Subaru. O câmbio manual de seis marchas tem engates tão curtos e precisos que compensam a embreagem com peso acima da média. No entanto, nem mesmo o acabamento predominado por plástico duro, o simplório rádio idêntico ao da antepenúltima geração do Corolla e o relógio digital que remete aos anos 90 são capazes de ofuscar a capacidade que o GT86 tem de empolgar quem está o volante.

gt86colagem

O visual do carro passa a impressão de estarmos diante de um foguete com muito mais de 200 cv de potência, mas o Toyota não precisa de um haras sob o capô para mostrar uma dinâmica extremamente afinada capaz de induzir o motorista a dirigi-lo por horas. A marca japonesa diz que o cupê acelera de 0 a 100 km/h em 7,6 segundos e atinge a velocidade máxima de 226 km/h quando abastecido com a gasolina de boa qualidade dos países de primeiro mundo. Os números não são impressionantes diante dos esportivos disponíveis atualmente, mas são suficientes para quem deseja ter uma boa experiência ao volante de um carro.

Na cidade, o GT86 sofre muito com a buraqueira das ruas e raspa a parte inferior do para-choque dianteiro em praticamente todas as lombadas e valetas que estiverem pelo caminho. Embora tenha uma boa agilidade no trânsito urbano, o cupê não é o carro mais indicado para o uso cotidiano pelo fato de a suspensão bastante rígida transmitir todos os impactos aos ocupantes com pancadas secas a cada imperfeição do asfalto. Falando em ocupantes, o GT86 possui quatro lugares, mas o banco traseiro é suficiente apenas para servir como um anexo do pequeno porta-malas de 243 litros, uma vez que o encosto é rebatível.

Toyota GT86

Teste Carsale-Mauá
Cidade
Estrada
0 a 100 km/h
9,9 km/l15,5 km/l7,88 segundos

Discreto quando funciona a baixas rotações, o motor do GT86 tem desempenho instigante quando trabalha entre 4 mil e 7.500 rpm. O propulsor impressiona pela elasticidade a giros altos e ainda emite um ronco meio rouco. Uma luz de mudanças de marchas (shift light) no meio do conta-giros indica o momento certo para o condutor fazer a troca para o melhor aproveitamento do torque de 20,9 kgfm do motor. Na estrada, a suspensão durinha, aliada aos controles de estabilidade e tração, passa confiança ao motorista e segura a carroceria de maneira exemplar em curvas. A direção, apesar de ter assistência elétrica, é rápida e comunicativa.

A segurança do carro é complementada pelos freios com ABS (antitravamento) e EBD (distribuidor eletrônico de frenagem) e seis airbags (frontais, laterais e cortina). No quesito conforto, o cupê traz ar-condicionado digital de suas zonas e bancos dianteiros com aquecimento.

Vem para o Brasil? Quanto vai custar?

A Toyota trouxe algumas unidades do GT86 para o Brasil com o objetivo de testar a durabilidade do motor com a nossa gasolina, “aditivada” com 25% de etanol. A marca chegou a confirmar que o cupê chegaria por aqui ainda este ano, mas adiou a estreia após a matriz anunciar algumas alterações no modelo. O GT86 deverá ser importado do Japão a partir de 2015 já com as modificações, entre elas uma moderna central multimídia com GPS integrado, e posicionado em uma faixa de preços de até R$ 150 mil, dependendo da configuração – é provável que a versão com câmbio automático de seis velocidades também seja oferecida – para rivalizar com o novo Honda Civic Si e Volkswagen Golf GTi.

Infelizmente, o GT86 não custará barato por aqui devido às já conhecidas taxas alfandegárias e também pelo fato de a Toyota não fazer questão de vender grandes quantidades do modelo. Mas só o fato de trazê-lo para servir de carro de imagem já é um ponto positivo para a Toyota. Embora seja um tanto modesto em relação ao acabamento interno e oferta de itens de conveniência (não há um mero sensor de estacionamento traseiro), o GT86 não tem concorrentes à altura dentro de sua provável faixa de preço no que diz respeito ao prazer ao dirigir.

Ficha técnica

ModeloToyota GT86
PreçoR$ 140 mil (estimado)
Motor2.0 16V
Cilindrada (cm³)1.998
Potência (etanol/gasolina)200 cv a 7 mil rpm
Torque20,9 kgfm entre 6.400 e 6.600 rpm
Freios dianteirosDiscos ventilados
Freios traseirosDiscos ventilados
Suspensão dianteiraMcPherson
Suspensão traseiraIndependente
RodasLiga leve de 17"
Pneus215/45 R17
DireçãoElétrica
Peso em ordem de marcha (kg)1.257
Comprimento (metros)4,24
Largura (m)1,77
Altura (m)1,28
Distância entre-eixos (m)2,57
Porta-malas (litros)243
Tanque (litros)50