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O normal é dizer que o inimigo “entrou pelo cano”, mas no caso da indústria automotiva, ele literalmente saiu pelo cano. Apesar de o segmento automobilístico estar, neste início de século, faturando como nunca antes, ele também nunca esteve tão ameaçado, e a razão não é desconhecida, mas no mínimo subestimada.

Há muitos anos que se alerta para o problema da poluição do ar, especialmente, nos grandes centros urbanos. No entanto, o mundo capitalista em que vivemos, exige consumo crescente para que o sistema econômico global funcione a contento. Mas, até que ponto isso é sustentável? Afinal de contas, no século XVIII, Thomas Robert Malthus já alertava que “um crescimento infinito é incompatível com um mundo de recursos finito”.

No entanto, o que poderá estar confrontando a produção industrial global, e até o modelo econômico nos moldes que conhecemos, não é o fim dos recursos naturais, como Malthus previu, mas sim o mau uso deles.

Um exemplo disso, é o gigantesco aumento da penetração dos veículos automotores equipados com motor de combustão interna. Estamos próximos de alcançar o recorde de 100 milhões de veículos vendidos em um único ano (em 2013, foram comercializados 85,4 milhões de unidades – OICA), e a frota global atual já supera 1,1 bilhão de veículos. Que isso tenha contribuído para o “aquecimento” da economia global, é indiscutível. No entanto, mais do que nunca o homem está questionando, se os benefícios econômicos compensam a deterioração da qualidade de vida, e os danos ambientais.

A poluição atmosférica na China, por exemplo, tem ultrapassado todos os limites de segurança para a preservação da saúde humana, requerendo ações pontuais para mitigar os altos índices de emissões de CO2. Aliás, na segunda semana de fevereiro deste ano, o Greenpeace publicou um relatório contendo os índices de poluição nas principais cidades do país.

Dos 74 municípios examinados no relatório, nenhum deles encontrou recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as partículas de 2,5 micrômetros ou menos. Apenas cinco cumpriam os padrões menos rigorosos do governo chinês para os níveis de PM2.5.

A província mais poluída é Hebei. Sete de suas cidades apresentam mais de 3 vezes o padrão chinês para PM2.5. A cidade mais poluída foi Xingtai no sul Hebei. É uma média de 155,2 microgramas por metro cúbico. Pequim, muitas vezes o foco de atenção da mídia, terminou em 13º, com uma média de 90,1, atrás de Xi”an e Tianjin entre grandes cidades, e apenas à frente de Wuhan e Chengdu (Learnist, 2014).

A situação é tão crítica que usar máscaras tornou-se rotina nos grandes centros urbanos citados. Há dias que a poluição é tanta, que a visão fica limitada a ponto de fechar escolas, e impedir o funcionamento do aeroporto Internacional de Pequim, o mais movimentado da Ásia e o segundo maior do mundo, com área de 986.000m², por onde em 2012, circularam 81,9 milhões de passageiros.

A saúde da população chinesa está sendo tremendamente afetada. O elevado crescimento das doenças e as mortes prematuras derivadas da poluição antropogênica, começam a inquietar as populações das grandes cidades. A busca pela prosperidade, pode estar cedendo lugar ao sonho da classe média de mandar os filhos para longe da poluição. O que parece não adiantar muito, pois pela primeira vez a ciência comprovou que a poluição do ar na china, está alcançando os Estados Unidos da América.

O governo chinês tem adotado diversas ações para mitigar a poluição antropogênica. Uma delas é estimular a adoção em massa de veículos de “emissão zero”, com foco no carro elétrico. Como a China é a segunda maior economia do mundo, e boa parte da Ásia, América do Norte e Europa, estão adotando políticas públicas exigindo mais eficiência dos carros, a tendência é a indústria priorizar investimentos em produtos sustentáveis, ainda que isso exija sacrifícios. Afinal de contas, é como diz o provérbio “Mais vale perder os anéis do que os dedos”.

Estando essa análise correta, restará aos que apostaram contra, ou não apostaram na mobilidade “emissão zero”, a possibilidade de rever os seus conceitos, ou o consolo de explorar mercados emergentes em que os governos forem tolerantes com a baixa eficiência.

Evaldo Costa é Diretor do Instituto das Concessionárias do Brasil, escritor, conferencista e colunista do Carsale.